aqui, ali, acolá
Espaço para escritos sobre as coisas miúdas do cotidiano. Aqui, ali, acolá temos surpresas na vivência diária e na observação do outro.
Thursday, April 26, 2012
Tatuagem sentimental
No final da tarde as duas se encontram. Antes que a mãe falasse qualquer coisa, a filha a abraça e lhe dá um beijo carinhoso. Diz em seguida em alto e bom tom: "Fiz uma tatuagem, mãe!".
A jovem e bonita senhora respira fundo, procura um lugar para sentar, pensa na criação católica que deu a filha, na reação dos familiares, na ingenuidade da filha e também fala em alto e bom tom: "Como você pode fazer isto comigo? Eu confiava tanto em você, Analice..."
A filha também procura algum lugar para sentar ou mesmo de apoiar, não sabia o que fazer com a reação da mãe. Disse baixinho, quase perdidndo perdão: "É só uma tatuagem, mãe".
A mãe não quer conversa, "fecha a cara" para a filha e complementa: "O que você tatuou? Uma caveira? O nome de algum destes namoradinhos de plantão? Animais? Francamente...". Continuou o sermão querendo saber em qual parte do corpo a filha tinha feito "o estrago".
A filha envergonhada e sem saber o que fazer, responde: "Foi nas costas, mãe!".
- "Nas costas? Você está louca, minha filha? Por que você fez isto? Está com algum problema? Deixa eu ver o que você fez!".
A filha mostra as costas ainda um tanto maltratadas pela ação do tatuador. Lá estava registardo em letras grandes e bem escritas: "Minha mãe, minha vida!".
Para o Gabriel Moreira, que chegará aqui em Fortaleza em breve.
Wednesday, March 21, 2012
Ei, vamos refletir?
Ei, vamos refletir?
“Ei” é uma expressão bastante comum no linguajar popular brasileiro. Quando queremos interagir com outras pessoas de modo mais informal, dispensamos as apresentações preliminares e vamos logo ao “Ei”, que muitas vezes vem acompanhado de uma pergunta. Um exemplo ilustra esta organização da comunicação que pressupõe intimidade com o outro e com o assunto do qual se fala. “Ei, você viu o acidente envolvendo o filho do grande empresário e a morte do ciclista?”.
O assunto tornou-se a informação relevante da semana. Comentários e opiniões gerados a partir deste fato ganharam o país via mensagens virtuais, reportagens exaustivas e repetitivas nas grandes redes de TV e rádio e um clima de perplexidade se apresentou no país do sentimentalismo efêmero e da contradição de classes; Depois de presenciarmos tragédias envolvendo Jet skis, trens, motos etc., agora chegou a vez de prestigiarmos um cenário também doloroso, mas que apresenta como personagem central “o filho do Homem” (É tempo de celebração do capital, digo, da Páscoa)”, carro de luxo (muito luxo, diga-se de passagem), bicicleta, morte, comoção e a banalização mais uma vez das transgressões das leis de trânsito.
Ei, que reflexões podemos fazer a partir deste episódio? Compartilho algumas.
A primeira reflexão é de como as redes virtuais e suas mensagens curtas e instantâneas dinamizam a formação de opiniões imediatistas e rasteiras sobre temas diversos, mas não ampliam de fato, o debate sobre leis, vida em sociedade, humanização das pessoas e trânsito. O acidente envolvendo o filho de um dos homens mais rico do planeta gerou muita mídia e pouca discussão.
Após o acidente que culminou com a morte do ciclista, o condutor do veículo envolvido neste episódio posta na sua página virtual criada para dar a sua versão do fato, que ele e sua mãe (o pai ganha ar secundário neste momento) estão rezando pelo bem da família do ciclista morto. A oração é sempre bem-vinda, mas deve vir acompanhada de ação, como bem pregava São Paulo. Uma ação simples, como não cometer infrações comuns no trânsito das grandes cidades e acumular muitos pontos na Carteira Nacional de Habilitação cairia bem junto às orações e a sociedade se sentiria mais segura com o pleno cumprimento das leis de trânsito.
Outra reflexão que podemos fazer é sobre as nossas necessidades afetivas e biológicas. No ímpeto da emoção, o jovem estudante que dirigia o carro fala que adoraria dar um abraço na tia do ciclista morto no acidente. Para uma sociedade que vive de abraços virtuais e efêmeros, parece que o rapaz encontrou um desejo preso em muitos de nós: a vontade de abraçar o outro. Claro que nem todos querem os nossos abraços. Na dor, em algumas situações, o abraço aparece como uma obrigação, uma formalidade, um “desencargo de consciência”. O abraço não seria o da paz, mas do conflito. Também poderíamos abraçar causas que nos possibilitassem interação maior com os outros. Estas causas são muitas.
Uma frase estampou quase todas as notícias sobre este acidente: “O coração do ciclista foi parar dentro do carro [envolvido na colisão]”. O coração arremessado para fora do corpo sinalizou a morte de mais uma vítima do ineficiente sistema de fiscalização e ordenação do trânsito nosso de cada dia. O Estado, com suas fissuras, se mantém vivo. Parece sem coração...
Ei, que reflexões podemos fazer para que de fato elas se transformem em ações? É preciso ouvir os nossos corações, antes que eles sejam arremessados e o sentido da vida se perca.
Tuesday, February 21, 2012
Promoçao Rapidinha
Uma coisa em especial me chamou a atenção nesta viagem àquela cidade: um banner colocado em frente a um motel anunciando a promoção da semana. Os letreiros anunciavam em letras garúdas e legíveis:
"Rapinha: R$ 10,00!".Fiquei intrigado pensando na interpetação do tempo a que se referia a tal "rapidinha" e fiquei tentado a desfrutar da tal promoção, mas "rapidinha" sozinho não dá. Neste caso, tem que ter alguém para dar.
Rapidamente me passou pela cabeça o sentido do tal banner promocional. Não havia nenhum asterisco (*) para dizer que a pomoção não era bem aquilo que se veiculava, nenhuma letra em tamanho menor para enganar o consumidor, NADA! Algumas palavras e um entendimento coletivo que não precisava de maiores explicações.
Para o meu amigo Rodrigo Borges, que promete passar rapidinho aqui em Fortaleza qualquer dias destes, mas tem demorado a chegar aqui.
Saturday, October 08, 2011
Erros, acertos, esperanças.
Tuesday, September 20, 2011
Pedidos
- Peça qualquer coisa, qualquer coisa mesmo. Te amo demais e queria muito te dar algo que você jamais esquecesse, algo que te fizesse muito feliz.
Ela abriu um largo sorriso, o beijou mais uma vez e respondeu sem pestanejar:
- O divórcio!
Sunday, July 24, 2011
Assaltos: parte 1
Minutos depois o ônibus chega e a passageira entra nervosa e sem falar com ninguém. Havia um sentimento coletivo de curiosidade em saber o que havia ocorrido com aquela passageira. Ninguém ousou perguntar. O motorista segue o trajeto, mas não aguenta de curiosidade e a pergunta o motivo do seu nervosismo. Ela responde:
- Quase fui assaltada a poucos metros da parada do ônibus e não havia ninguém para me ajudar.
- É, esta cidade está perigosa demais. Todos os dias tem assaltos. Fique calma que agora você está segura. Roubaram alguma coisa?
- Não, mas eu ainda estou muito nervosa porque bati muito no assaltante e ele ficou caido no local do assalto. Acho que exagerei na dose. Queria apenas dar um susto nele.
- O motorista dá meia volta, explica aos passageiros o que ocorreu e segue em direção ao local do assalto.
A passageira que relatou o episódio, agora um pouco mais calma, pergunta:
- O sr. vai socorrer o assaltante? Não é melhor chamar a polícia?
O motorista responde:
- Eu vou é dar umas porradas nele também se ainda estiver lá.
- A passageira volta a sua crise de choro.
* Relato que ouvi de um colega em um dia de conversa sobre violência na cidade de Fortaleza. Este texto é dedicado aos colegas do LEC.
Sunday, March 13, 2011
Um pouco de mentira.

Ela fcou sem saber como agir, o coração batia mais forte, a transpiração acelerou, faltavam-lhe palavras. Já ouvira esta frase muitas vezes, mas não com tamanha intensidade. Quase sem fôlego, retribuiu a pessoa que havia lhe tranformado emocionalmente com uma confissão: "Você é o sentido da minha existência".
Foi um encontro rápido e cheio de sentidos. Beijaram-se e cada um tomou o seu destino. Ela continuava pensando que o amor é o maior dos sentimentos. Estava muito feliz. A outra pessoa chegara a conclusão de que as mentiras são parte do nosso cotidiano. Também se sentia feliz.
Para aqueles que acreditam nas felicidades construídas de pequenas mentiras. Será que estou dedicando este texto para mim?